sábado, 22 de junho de 2019


Resenha: Os dez anos em que mais te amei

Esse aqui é o resultado de uma hora tediosa na internet, na qual acabei me aventurando em leituras fora do habitual. Sem arrependimentos. Essa obra despertou um misto de emoções e me fez refletir sobre diversos aspectos do famigerado amor romântico. No que estamos depositando nossos sentimentos? O que o outro fará com eles? Como o final pode ser feliz se, essencialmente, é o fim? Os Dez Anos Em Que Mais Te Amei é uma história tocante e revoltante, e preciso dizer o porquê.

Título: Os dez anos em que mais te amei
Gênero: Drama/Yaoi
Autor: Tofu Manhua e Wu Yi Ning Si
Capítulos: 29 (em andamento)

Sinopse: Baseado no romance com o mesmo nome, adaptado por Wu Yi Ning Si. O detestável seme que busca problemas e o gentil e tranquilo uke. Sempre se aborrecia com aquela pessoa para ir embora. Enfim, ele ficava em silêncio, curvava-se e juntava os pedaços de porcelana do chão. Porém quando realmente quis ir embora, ele só escolheu a tarde mais ensolarada e com um suave vento, envolveu-se no casaco que geralmente usava com mais frequência, saiu pela porta e nunca mais voltou.

Essa sinopse tenta passar uma pegada poética, mas acaba confundindo mais do que esclarecendo. Infelizmente, é a única que encontrei. Há pouquíssimas informações sobre essa história nos sites nacionais. Em alguns é tratado como manhua, uma versão chinesa dos mangás japoneses. Em outros, no entanto, é classificado como manhwa, a versão coreana. Independente da origem, ficam explícitas as diferenças narrativas e visuais de Os Dez Anos Em Que Mais Te Amei para o que conhecemos como mangá aqui no Brasil.

Não é necessário um olhar técnico para identificar o colorido das páginas e a forma minimalista da quadrinização. Mas, exatamente por não ser técnica, não me aventurarei a analisar esses elementos que sequer sei nomear direito. Me contento em elogiar a delicadeza dos traços, as palhetas de cores ricas em sensações e a maestria em contar muito em poucos e pequenos quadros.


No primeiro capítulo conhecemos He Zhishu, chamado de uke na sinopse. Um homem na faixa dos trinta anos que acaba de descobrir que está com câncer. Sua expectativa de vida foi estimada em mais um único ano.


Há catorze anos Zhishu mantêm um relacionamento estável com Jiang Wenxu, o seme da sinopse. Assim que sai do hospital, desolado com seu diagnóstico, Zhishu liga para Jiang em busca de algum tipo de apoio. Após várias tentativas, Jiang atende, impaciente e apressado. Outro item é adicionado na lista de dramas do enredo: Jiang tem um amante.


A partir dessas poucas e desoladoras informações, começamos a acompanhar a trajetória de Zhishu. Não só isso, começamos a desvendar as camadas sobrepostas de um relacionamento abusivo, no qual uma pessoa teve sua vida e individualidade completamente minada pela outra.

Zhishu é alguém frágil, com uma autoestima que rasteja no chão em que seu parceiro pisa. Ele não revela seu estado de saúde a Jiang simplesmente porque não quer entristecê-lo. Em contrapartida, tem total consciência de que está sendo traído. Seus pensamentos em relação a isso? Bem...


Sentiram a toxidade dessa dependência emocional? O nível microscópico de amor-próprio?

Espera que fica pior.

Jiang Wenxu é CEO de uma empresa fundada pelo casal. Enquanto Zhishu fica isolado em casa, ele viaja pelo mundo a trabalho, usando isso como desculpa para suas longas ausências. Não obstante ao fato dele andar aprontando na rua, possui uma desconfiança desmedida de Zhishu. Seus ciúmes se agravam ao perceber que o companheiro está escondendo alguma coisa. Porém, mesmo que todos os indícios apontem que Zhishu está doente, Jiang se limita a pensar em traição.

Isso não só mostra sua falta de sensibilidade para com o outro como também revela um traço odioso de seu caráter: a agressividade.


Esse quadro é muito forte. Fico sem palavras para descrever todas as emoções que ele passa. A expressão surpresa de Zhishu com a atitude de Jiang chega a doer. O quadro seguinte ilustra o que está na mente dele e dos leitores:


Gente! Pelo amor de Deus!! Quem ama não bate, não machuca, não humilha!! E, nos capítulos seguintes, descobrimos que Jiang está, sim, disposto a bater. Mais que isso, ele também grita, acusa injustamente e, o mais grave dos seus crimes, força Zhishu a ter relações sexuais agressivas.

Ele é um demônio encarnado que merece todo o rancor do mundo. Um ser desprezível, doente, psicopata e, acima de tudo, complexo.

Eu disse que essa história me fez questionar as bases do amor romântico, principalmente a forma como as mídias o retratam. Nem Jiang, nem Zhishu iniciaram sua relação da forma que estão agora. Ao contrário, o namoro deles é digno de livros, filmes e qualquer outro meio que aborde o tema romance na atualidade.

Eles se conheceram na escola. Jiang era o garoto bonito e popular que, magicamente, se apaixonou pelo menino introvertido da turma. Por conta do preconceito, os pais de Zhishu eram contra a relação. Nada que o amor não pudesse vencer, afinal, Zhishu largou tudo para viver ao lado de Jiang. E eles prosperaram. Apesar das dificuldades, construíram um patrimônio riquíssimo e aumentaram seu padrão de vida. Jiang até demonstrava um sentimento sincero.


Se Dez Anos Em Que Mais Te Amei se restringisse a ser um romance comum, poderia encerrar com Zhishu e Jiang desfrutando uma vida plena e abastada na varanda de seu apartamento classe alta. Quantas histórias não acabam assim? Depois de todas os obstáculos ao amor, o casal se reúne para o icônico beijo que sela a promessa do e foram felizes para sempre.

O maldito final feliz!

Só que tanto na vida real quanto na história de Zhishu o “final feliz” não representa o encerramento. Pode ser considerado apenas o ápice de sinergia e satisfação entre duas pessoas, porém o momento não é eterno. Depois dele, a história continua rolando e seu final definitivo está fadado a ser doloroso: a separação em vida ou a separação da morte.

Zhishu encara essas duas possibilidades de uma vez só. De um jeito ou de outro, terá que dizer adeus a Jiang. Mesmo que não estivesse doente, quanto tempo mais suportaria sendo a vítima de um sádico? E se o único problema fosse a doença, seu definhar para a morte não seria menos traumático.

O final não é feliz. De jeito nenhum.


Mas, largando mão do pessimismo, ainda existe a possibilidade de recomeços. E, ao que vemos na obra, eles surgem até nos piores momentos. Para Zhishu, o recomeço está atrelado ao doutor Ai Ziyu, o médico que acompanha seu tratamento.


Não necessariamente acho que um amor deve substituir o outro, porém Zhishu não tem família ou amigos (cortesia de Jiang) para apoiá-lo nesse momento tão difícil, por isso a figura de Ziyu se torna tão essencial em sua vida. Ele é alguém que sabe da doença, que quer vê-lo bem e que, sim, está apaixonado. É um contraponto que permite Zhishu – e o leitor – respirar um pouco.

É duro acompanhar o desenvolvimento do enredo. Larguei a leitura várias vezes por conta da revolta com as atitudes de Jiang e a passividade de Zhishu. Aquela ideia fixa do se fosse comigo, eu não deixava!. Só que sou a expectadora aqui, assim como fui de vários casos reais. Julgar a vítima não é o caminho para ajudá-la. Estou trabalhando esse pensamento...

A obra é profundamente triste, deprimente ao máximo e com momentos de pura indignação (também cortesia de Jiang). Há gatilhos para violência doméstica e estupro, sendo classificada para maiores de dezoito anos. Entretanto, é uma leitura válida. Põe o dedo na ferida das relações abusivas. É um reflexo do que tantos homens e mulheres passam por aí, na vida real – lembrando que relacionamentos abusivos podem ser heterossexuais, homossexuais, entre amigos, familiares e o cacete a quatro.

Eu ainda tenho assunto para falar e falar e falar sobre Os Dez Anos Em Que Mais Te Amei, mas esse texto já está imenso. Como a tradução para o português está ativa, aguardo o decorrer dos próximos capítulos e a conclusão da série. Espero ter estômago para chegar ao fim.
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Comentários
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10 comentários:

  1. Eu acompanho... e o enredo me apreendeu muito todas as histórias são cheias de felizes para sempre quando essa e mais realista. Enfim vale muito ler apesar de eu ter chorado em boa parte da leitura

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    1. Estou louca para a tradução acabar logo para que eu possa me livrar do balde de lágrimas que acompanha essa história. O final promete ser pesado...
      Obrigada pelo comentário e apareça mais vezes! <3

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  2. Amei o seu texto, você explicou bem e acho que você entrou bem na historia. Como editora de manhua, manhwa e manga tento fazer isso com meus leitores, tento traduzir e editar o melhor possivel p transmitir o que senti. A historia está quase chegando ao fim. Deeem uma passada la no meu site que temos capítulos atualizados. yaoifanclub.com.br

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    1. Olá! Obrigada por comentar.
      Ainda não voltei a ler esse manhwa, estou esperando que o lançamento seja concluído para fechar de vez essa história tão triste. Não conhecia seu site e achei muito bom. Já sei onde vou terminar essa leitura ;)
      Obrigada pela indicação! Volte sempre o/

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  3. A leitura além de válida é um ensinamento pra nós caso ocorra algo parecido, a história é linda mais bem triste meu sentimento na leitura foi de odio, amor e tristeza profunda.

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    1. A história é um soco no estômago e um choque de realidade. Realmente torço para que sirva de alerta para os leitores correrem para longe ao menor sinal de relação abusiva.
      Obrigada por comentar o/

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  4. sim, é um leitura bem válida e uma historia super triste. só queria que tivesse um final feliz, mas a vida nem sempre é assim como nos queremos

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    1. Estou me preparando psicologicamente para ler o final pq sei que é de arrasar o coração :´(
      Obrigada por comentar o/

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  5. Acabei de terminar, e foi tão doloroso quanto eu imaginava(chorei horrores), mas foi uma história que me fez pensar e aprender.

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    1. Eu li o final esses dias e ainda estou digerindo tudo o que passou. :´(

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